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terça-feira, 25 de outubro de 2011

UMA VERGONHA NACIONAL - Do Blog "COISAS DA GUINÉ" com a devida vénia

«O José António é natural do Peso da Régua, em Junho de 1971 assentou praça no RI 13 Vila Real, três meses depois foi colocado em Abrantes integrado na 2ª. Companhia do Batalhão 4518 e em 24 de Dezembro partiu para a Guiné.
A sua Companhia foi destacada para Cancolim dela faziam parte um Alferes natural de Lamego, que me disseram ser actualmente professor, e que não consegui ainda contactar, o Alferes João Pacheco Miranda, actualmente correspondente da RTP no Brasil.
Em Junho de 1971 foi feito prisioneiro pelo PAIGC, foi levado para Conacry donde em 1973 após o assasinato de Amilcar Cabral foi enviado para uma zona libertada na Guiné Bissau, Madina do Boé. Eram seus companheiros de cativeiro o nosso "morto/vivo" António Silva Batista de Gaia, Manuel Vidal de Castelo de Neiva, Duarte Dias Fortunato do Pombal, António Teixeira da Lixa, Mauel Fernando Magalhães Vieira Coelho do Porto, Virgilio Silva Vilar de Vila da Feira e Jacinto Gomes de Viseu.

Durante quase um ano a sua casa foi em Madina do Boé de onde em 7 de Março de 1974, aproveitando um momento em que a vigilânçia abrandou, se dirigiu na direcção do Rio Corubal para tentar a fuga. Andou 9 dias ao longo Rio, até encontrar dois nativos que andavam numa plantação junto ao rio. Um deles de motorizada levou o José António até ao Saltinho. Depois foi transportado para Aldeia Formosa, para ser levado para Bissau. Como naquele tempos díficeis a via aerea já não reunia muias condições de segurança devido aos Stellas, foi transportado em coluna até Buba e dai de LDG para Bissau. Apesar de ser meu conterraneo, na altura não o reconheci, e tal me foi comunicado pelo Cabo do SPM de Aldeia Formosa Camilo também natural da Régua.
Após o regresso em Agosto de 1974, procurei saber da sua situação. Levava uma vida muito complicada, pois se tornou pouco sociável (como muitos de nós), mas não teve uma rectaguarda ou seja um suporte familar que o protegesse e os conflitos eram frequentes. Internado várias vezes, de onde fugia sempre que podia (tornou-se um hábito), foi mais tarde colocado numa casa de acolhimento onde agora vive melhor e é bem tratado. Porém sobrevive com uma pensão de incapacidade de apenas 246 €, o que de facto é insuficiente, para o seu sustento e agora aproveito para agradecer publicamente à familia que o recolheu especialmente à D. Juvelinda que com tanto carinho o trata.
Mas por incrível que pareça, até do miserável suplemento especial de pensão que anualmente é atribuido a antigos combatentes (150 € ano) apenas recebe 75 €, pois como foi capturado com apenas 7 meses de Guiné, o tempo que passou quase 3 anos como prisioneiro não foi considerado!!!  A propósito deste SEP p/Antigos Combatentes, eu propunha que tal verba fosse prescindida por todos aqueles que tem uma reforma acima de determinada importância em favor daqueles ex-combtentes com reformas inferiores ao salário mínimo. Isto para fazer sentir a quem nos governa, que tal esmola nos envergonha e que temos um sentido de solidariedade muito diferente dos políticos que nos têm governado.
Um abraço a todos.
»
José Manuel Lopes

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

"A minha guerra" - pelo Pica Sinos, no Correio da Manhã.

Fugi de morteiros a perguntar ‘quem são eles?’

Quando cheguei à Guiné-Bissau não sabia nada da guerra. Foram tempos muito duros, mas percebi que o nosso lugar não era ali.

No dia 7 de Abril de 1967, no Aquartelamento de Artilharia Costa na Parede (Cascais), teve lugar a formação e a entrega do guião ao Batalhão de Artilharia 1914, composto por três companhias operacionais e uma de comando e serviços. Embarcámos para a Guiné no dia seguinte. No cais de Alcântara despeço-me da família, que me acompanhou ao embarque. Ao som da fanfarra militar e do acenar dos lenços, o paquete ‘Uíge’ larga as amarras.

Chegámos à Guiné-Bissau a 14 do mesmo mês. À nossa esquerda, pelo lusco-fusco, avistámos a cidade – Bissau – cujo chão não tivemos o prazer de pisar. O desembarque para as lanchas aconteceu horas depois, não sabendo os jovens guerreiros o seu destino.

Chegámos já noite ao Enxudé, porto de mar situado a cerca de 10 quilómetros do quartel, onde esta nova Companhia de Comandos e Serviços viria a ficar situada. Fomos transportados e guardados por homens armados de semblante carregado e ‘velho’, mas com apenas mais dois anos de idade.

Uma hora depois chegámos a Tite, um dos principais aglomerados populacionais. Ficava no mato, a sul desta então província ultramarina, na região de Quinará. Tite foi a localidade onde, em Janeiro de 1963, Amílcar Cabral, fundador do PAIGC, principiou as acções de guerrilha contra as tropas portuguesas. Mas todos sabíamos que o pior estava para vir… a guerra.

FUGIR AOS MORTEIROS
Quando fui mobilizado, uma vez que não era operacional, não assisti a treinos de enquadramento, que duravam mais ou menos um mês. Ou seja, de aperfeiçoamento operacional só tinha a recruta, estando longe de imaginar o que ia encontrar.

A minha ignorância era tamanha que no primeiro ataque ao quartel que sofremos, a 19 de Julho de 1967, estava a comer um petisco ‘importado’ de Lisboa, perante o som dos morteiros a serem disparados, parecido com os das portas dos frigoríficos a fecharem-se. Vi os mais velhos a levantarem-se como se tivessem molas nos pés, deixando tudo para trás numa correria desenfreada, gritando "Aí estão eles!". Eu corri na peugada dos meus camaradas, mas não deixava de perguntar: "Quem são eles?".

Era o início do nosso calvário. Entre 14 de Abril 1967 e 3 de Março de 1969 sofremos 12 flagelações. Nesse período tivemos 16 mortos (dois deles por acidente) e 47 feridos.

O inimigo actuava na região de Tite com grande mobilidade, era conhecedor do terreno com pormenor. Estava organizado militar, política e administrativamente e com o apoio das populações, era forte, aguerrido e dispunha de um potencial de meios de guerra igual, se não superior, aos do Batalhão. Exercia também uma actividade importante no controlo das populações e na sua promoção social.

Um dia, na palhota da minha lavadeira, estava uma mulher que nunca antes avistara. Ao mostrar-lhe uma fotografia, onde estava com a minha namorada, perguntou-me fixando bem a minha face: "Qual é a razão da vossa presença neste país?" "Estamos aqui para vos defender", disse convicto. Não ficou satisfeita. Com os olhos rasos de água, retorquiu: "Já pensaste que se não vos mandassem para cá, não existia esta guerra, que os nossos rapazes não eram forçados a combater-vos, que os nossos haveres e produtos agrícolas não eram roubados, quer por uns quer por outros?". Esta conversa fez-me ‘ver’ o outro lado da moeda.

Regressámos a Lisboa na manhã de 9 de Março de 1969. Fomos recebidos com muita emoção por familiares e amigos e só então pudemos respirar fundo e dizer "já passou..."

PERFIL
Nome: Raul Pica Sinos
Comissão: Guiné (1967/69)
Força: Batalhão de Artilharia 1914
Actualidade: Reformado do sector da distribuição alimentar, vive em Corroios. Aos 65 anos, tem duas filhas e três netos
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Com a devida vénia ao Correio da Manhã, transcrevemos esta crónica escrita pelo nosso colega Pica Sinos e que veio inserida na revista DOMINGO, de 25 de Setembro de 2011.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Os primeiros seis meses na primeira companhia de Tite, foram muito dolorosos...

Por indicação do Marinho e com a devida vénia ao Correio da Manhã e seus Jornalistas, transcrevemos a seguir um artigo publicado na Revista de Domingo último, que relata a passagem por Tite dum companheiro, no inicio da guerra colonial:
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"Assentei praça nas Caldas da Rainha em 1961. Depois da recruta tirei a especialidade de armas pesadas em Abrantes e, mais tarde, fui para a base aérea da Ota. Aí mesmo, um certo dia, estava eu de reforço, assustei-me com um pássaro e, sem querer, disparei um tiro para o ar.
Quando fui chamado ao comandante para explicar o que tinha despoletado o incidente, acabei por informá-lo que não fazia mais reforços! Fui repreendido e castigado, claro, e tive de responder perante o conselho de guerra, fui condenado a pena de prisão de 41 dias e acabei por ir parar ao forte de Elvas.
 Só depois desse episódio fui mandado para o quartel de Penamacor, onde finalmente fui mobilizado para ir para o Ultramar, mais concretamente para Tite, na Guiné, o sítio onde a guerra tinha começado.
"MÃE, ESTOU NO PARAÍSO!"
Embarquei no Cais da Rocha do Conde de Óbidos a 4 de Maio de 1964. Não disse nada a ninguém, nem a minha mãe soube. Depois, já lá na Guiné, é que lhe escrevi umas linhas dizendo: "Mãe, estou aqui na Guiné, e estou no paraíso!". Não a queria preocupar e, na verdade, nem eu sequer sabia muito bem o que ia encontrar por lá. E tinha razões para estar apreensivo.
Os primeiros seis meses na primeira companhia de Tite foram muito dolorosos. Imagine-se o que é estar no meio de um pântano, meio enterrado na água podre, à noite, rodeado de bichos, enquanto o inimigo mandava ‘very-lights' para o ar para nos descobrir e atacar. Assim que lá cheguei vi muitos homens, dos nossos, que pareciam ter duas cabeças, de tal forma deformados que estavam pelas picadas dos insectos. Noutra ocasião, fomos transportados numa lancha para Jabadá e, assim que chegámos a terra, ainda a sair da lancha, fomos atacados a tiro.
Apanhavam-se muitos sustos. Às vezes, até a nossa própria aviação nos confundia e desatava a disparar.
Apesar de tudo, acho que não fui dos que mais sofri, pois quando ouço, ainda hoje, histórias de outros camaradas é que penso que tive muita sorte. Muita gente não faz a mais pequena ideia do que aquilo era e das coisas pelas quais se tinha de passar.
Deve ser por isso que ainda gosto de organizar almoços-convívios de ex-combatentes e de confraternizar com a rapaziada. Recentemente consegui arranjar reforma para um ex-combatente aqui da terra, deficiente, que estava há 11 anos a depender de uma irmã. De uma forma geral, e por tudo o que sofreram, os ex-combatentes mereciam mais respeito dos nossos governantes.
SPORTING DE BISSAU
Nunca fui ferido e nunca estive doente, mas cheguei a estar internado no hospital militar por causa dos dentes mas era tudo uma artimanha para poder jogar futebol na temporada de 64 no Sporting Clube de Bissau (de outra forma teria de ter voltado para a companhia). E há conta disso joguei no campeonato. O futebol era o meu escape, a única coisa que me distraía... afinal, há conta dos vários castigos que tive, já estava há mais de quatro anos na tropa.
Quem me ajudou também foi um furriel, que era muito bom rapaz. Tive de mudar de companhia, por causa de uma querela com o comandante da primeira, mas quando cheguei à segunda queriam que fizesse a instrução outra vez. Esse furriel virou-se para o comandante e disse: "Deixe lá seguir o rapaz, que já cá está há tanto tempo!".
E assim foi! E até passei a ser uma espécie de guarda-costas do comandante!
PERFIL
Nome: Joaquim Gil Vinagre
Comissão: Guiné, 1964/66
Força: Companhias de Caçadores 677 e 675
Actualidade: 70 anos, reformado, ex-pintor da construção civil"